O Processo’ lança olhar aprofundado ao impeachment de Dilma Rousseff

O Processo' lança olhar aprofundado ao impeachment de Dilma Rousseff

O documentário 'O Processo' revisita momentos dos trâmites que culminaram no impeachment da presidente Dilma Rousseff; Confira crítica

Publicado em 11/05/2018, às 09h47

'O Processo  impeachment de Dilma Rousseff

'O Processo' retrata o caminhar do processo de impeachment no Senado Federal Foto: Divulgação

Rostand Tiago

As complicações para conduzir um documentário partem de sua capacidade do convencimento, de sua honestidade, antes mesmo de dificuldades técnicas ou narrativas. Esse obstáculo é potencializado ao se tratar de uma produção capaz de deixar claro, desde o princípio, um ponto de vista que encontra oposições fortes, principalmente quando imerso no campo da política, ainda mais a brasileira.

Dentro de todo esse panorama, a diretora Maria Augusta Ramos se sai exitosa no desenvolvimento de O Processo, ao documentar o encaminhamento do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, utilizando como eixo condutor a defesa da petista.

Após uma introdução que condensa os melhores e piores momentos da votação pela aceitação da denúncia do afastamento pela Câmara dos Deputados, onde gritos de golpe se misturam a exaltações à família e agentes do regime militar, acompanhamos os trâmites do processo no Senado Federal, entre reuniões da comissão especial, articulações da defesa e a própria votação.

Há uma série de escolhas estéticas para que haja a condução de uma maneira mais "neutra" possível, levando em conta a posição tomada. A mais palpável delas é o uso apenas de filmagens, sejam elas da própria equipe ou obtida de redes televisivas. Não há entrevistas, músicas de acompanhamento, no máximo letreiros com datas e contextualização do que acontece no momento a ser apresentado.

Abordagem sem espetacularização

Esta abordagem acaba por construir um olhar antiespetacularizante dos eventos e estamos falando de um dos momentos políticos com maior potencial melodramático. De fato, os acontecimentos que remetem à espetacularização do processo são, de uma certa forma, ridicularizados pelas lentes de Maria Ramos, indo da risibilidade ao desconforto. Cabe a advogada e professora Janaína Paschoal, uma das autoras do pedido de impeachment, protagonizar boa parte deles, seja nos momentos em que alonga os músculos antes de fazer um discurso eufórico e dotado de fisicalidade, mas também quando recebe visitas que pedem para a advogada gravar recados para seus admiradores.

São cenas como essas, mais prosaicas, que acabam dando uma complexidade maior a todas as outras que já foram vistas e revistas na grande mídia. Vemos as defesa enérgicas e formais do advogado José Eduardo Cardozo, mas também o vemos em ligações telefônica com sua filha, em que finaliza mandando "beijocas", assim como risadas descontraídas e até brincadeiras nas reuniões de discussão.

Aliás, até as citadas cenas já vistas e revistas também ganham outro prisma, agora muito focadas também nas reações dos ouvintes, para além dos discursantes, deixando-os apenas com o som em off. Assim, vemos sintomáticos momentos em que mulheres, como a senadora Gleisi Hoffmann, falam, mas há uma clara desatenção por parte de homens que deveriam estar escutando, mas preferem fazer qualquer outra coisa.

Por sinal, Hoffmann é uma das personagens de destaque de um elenco restrito, uma ferramenta que auxilia na demarcação narrativa temporal e espacial. O elenco foi dividido em dois eixos e com tons bem definidos, com base sempre nas imagens obtidas e nada mais.

A defesa petista é acompanhada mais de perto, em passagens pelos corredores, deslocamento em carros e reuniões com portas fechadas. Entre eles, temos as figuras dos senadores Lindeberg Farias e Fátima Bezerra e o então Advogado-Geral da União José Eduardo Cardozo. A própria figura de Dilma Rousseff possui um tempo menor de cena, mas aparece em momentos fortemente significativos, como sua defesa no Senado, que ainda conta com a presença do ex-presidente Lula, acompanhado por Chico Buarque.

O outro lado é logicamente abordado com mais distância, sendo neste tratamento que a escolha da utilização apenas das imagens, sem enfeites e acompanhamentos, se mostra acertada. Janaína Paschoal pode reclamar talvez da montagem, indagando a necessidade de um plano em que ela aparece infantilizada tomando um achocolatado em caixa de canudo, mas não encontrará muito argumento se tentar contestar a autenticidade das filmagens.

O Processo é um documento histórico de alto valor. Isso vale para os que estão mais alinhados ao posicionamento adotado pelo documentário, por motivos óbvios, mas também para os opositores que decidirem investir um olhar filtrado, mas sincero sobre as imagens obtidas, que abarcam raros momentos intimistas e bastidores das decisões do momento político mais turbulento desde a retomada da democracia.

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