O Processo

O Processo

Longa metragem documental de Maria Augusta Ramos
O Processo retrata o complexo processo político-jurídico que culminou no impeachment da Presidenta Dilma Rousseff em 31 de agosto de 2016. O filme dá continuidade às abordagens desenvolvidas pela diretora a partir do sistema judiciário brasileiro na trilogia formada por Justiça (Grand Prix no Festival Visions du Réel, Suiça 2004), Juízo (Festival de Locarno, Prêmio da Crítica no Dok- Leipzig, 2008) e, num olhar complementar e anterior aos corredores da burocracia, Morro dos Prazeres (Melhor Direção, Fotografia e Som no Festival de Brasília, 2013).

“Nenhum outro diretor, seja no documentário ou na ficção, filma hoje, no Brasil, como Maria Augusta, o indivíduo e sua relação com as instituições… Quando fala das relações das camadas desfavorecidas com a polícia e as instituições que compõem o Judiciário, ela está sempre querendo discutir a violação de direitos básicos”, escreveu o crítico Luiz Carlos Merten em “O Estado de São Paulo”. O novo projeto da cineasta reúne todas as questões da trilogia anterior e vai mais além. Busca compreender e refletir sobre o atual momento histórico brasileiro através de um processo que revela uma crise estrutural do Estado e do próprio regime democrático.

A crise econômica, a inquietação social, a pressão midiática e os conflitos internos entre as pessoas envolvidas formaram o caldo em ebulição que levou à destituição de Dilma Rousseff. Considerado como um Golpe “branco” por uma grande parcela da sociedade civil, e por juristas e intelectuais, que o consideram ilegítimo diante da ausência de crime de responsabilidade, o impeachment se tornou um grande evento espetaculoso apoiado por significativos setores da mídia, do Judiciário, do Executivo e do Legislativo.

Para realizar O Processo, Maria Augusta Ramos passou vários meses em Brasília, sua cidade natal, acompanhando cada passo do processo de impeachment. Ela e sua equipe circularam por corredores do Congresso Nacional, filmaram coletivas de imprensa, registraram as votações na Câmara dos Deputados e no Senado que deram prosseguimento à queda da Presidenta e testemunharam bastidores nunca mostrados em noticiários de cadeia nacional. A diretora teve acesso único a Presidenta e sua defesa. Filmou horas e horas de reuniões e discussões a portas fechadas com a presença do advogado José Eduardo Cardozo, sua equipe e os senadores e assessores da Liderança do PT e da minoria no Senado.

O estilo da diretora, característico em toda a sua obra, mescla a observação e a escuta. Maria Augusta Ramos não filma entrevistas, não encena acontecimentos, não interage com quem está sendo filmado. Ela enquadra o mundo tal como lhe aparece aos olhos. A intervenção na realidade – inevitável e inerente a qualquer processo documental – vem em fase posterior, durante a montagem e na reestruturação das imagens. Nos filmes da trilogia assim como em Futuro Junho (Melhor Direção no Festival do Rio, Melhor Filme na Janela Internacional de Cinema de Recife, 2016), a diretora segue a ordenação cronológica, numa teia de relações que se constrói junto com o espectador, integrando-o no fluxo das complexidades e contradições dos jogos de poder. Das 450 horas de material filmado durante o impeachment de Dilma Rousseff para O Processo, a diretora quer expor um olhar particular às entranhas de Brasília e de um procedimento jurídico marcado por lances controversos e interesses muitas vezes nebulosos.
Retratar esse momento de maneira complexa, na busca por enxergar as possíveis outras narrativas fora dos meios oficiais e radiografar as relações de poder de uma sociedade, é a ambição do filme.
“Maria Augusta Ramos ocupa um lugar singular no cinema brasileiro… Sua câmera não arreda pé, não dá trégua, até deslindar as dimensões humana, social e política da realidade que foi buscar.”
Dorrit Harazim , Revista Piauí


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